ManifestaMente
  • Quem somos
    • ManifestaMente
    • Manifesto pela Saúde Mental
    • Valores
    • equipa
    • Apoios e Parcerias
    • Media
    • Congressos e outros
  • O que fazemos
    • Kit Básico de Saúde Mental
    • Programa de Capacitação de Dinamizadores Locais
    • Kit Jovens
    • Kit Crianças
    • De pequenino a torcer pela saúde mental
    • Cantar pela Saúde Mental
    • Podcast Manifesta-Te
  • Como Ajudar
    • a ManifestaMente
      • Asssociar-me
    • no meu dia-a-dia
    • uma pessoa próxima
  • Preciso de Ajuda
  • Testemunhos
  • Blog
  • Contactos
    • jornalistas
    • Subscrever Newsletter
  • zona do utilizador
  • Quem somos
    • ManifestaMente
    • Manifesto pela Saúde Mental
    • Valores
    • equipa
    • Apoios e Parcerias
    • Media
    • Congressos e outros
  • O que fazemos
    • Kit Básico de Saúde Mental
    • Programa de Capacitação de Dinamizadores Locais
    • Kit Jovens
    • Kit Crianças
    • De pequenino a torcer pela saúde mental
    • Cantar pela Saúde Mental
    • Podcast Manifesta-Te
  • Como Ajudar
    • a ManifestaMente
      • Asssociar-me
    • no meu dia-a-dia
    • uma pessoa próxima
  • Preciso de Ajuda
  • Testemunhos
  • Blog
  • Contactos
    • jornalistas
    • Subscrever Newsletter
  • zona do utilizador

blog

Millennials, dating e a dificuldade real de criar vínculo

13/2/2026

 
Fotografia
Ao longo da última década, tenho sentido uma realidade, dentro e fora do consultório, que se repete como um disco riscado, e talvez tu também: “Conheço pessoas. Tenho dates/encontros. Mas não consigo construir nada”.
Pensei durante algum tempo que isto fosse apenas uma impressão clínica, uma espécie de eco seletivo do consultório e da minha comunidade. No entanto, ao investigar um pouco mais, percebi que a verdade é que o contexto relacional mudou globalmente, e há evidência científica e dados sociais que ajudam a colocar uma lupa nesta sensação. 
​

Como acredito que o amor é o motor da vida e a gravidade invisível que mantém o mundo no lugar, recuso-me a “baixar os braços” perante este cenário – e, para construir esperança , acredito que é necessário primeiro assumirmos a realidade: as probabilidades e os custos psicológicos mudaram.

O que antes era sobretudo um encontro mediado por contexto (amigos, trabalho, bairro, comunidade) passou, para muita gente, a ser um encontro mediado por sistema: plataformas, perfis, métricas, comparações, microdecisões rápidas. E isto mexe com o vínculo que (não) se cria, de forma muito subtil.

Durante uma formação com a minha supervisora, onde o tema era, precisamente, a vinculação, navegámos numa conversa sobre este aspeto da modernidade: o dating contemporâneo tende a aumentar a exposição e a reduzir a continuidade. Mais contactos possíveis, menos tecido social a segurar a história.

O que a ciência (já) consegue dizer e o que ainda não consegue

Há três peças bastante robustas:

A. Conhecer online tornou-se uma via dominante (em vários cenários), e isso desloca “terceiros”, que antes davam contexto e confiança.
O trabalho de Rosenfeld e colegas mostra como o “online meeting” ganhou centralidade e como o encontro mediado por amigos/família perde peso, alterando a forma como a confiança se constrói (menos reputação, menos contexto partilhado, menos rede comum). 

B. “Muita escolha” pode levar a  maior rejeição e menos investimento.
Um estudo sobre “choice overload” (sobrecarga de escolha) e “rejection mindset” (mentalidade de rejeição) sugere que o acesso contínuo a muitos potenciais parceiros pode levar ao desenvolvimento de uma postura mais pessimista ou rejeitadora, o que afeta a disposição para investir. 

C. As apps não são “boas” ou “más” por si mesmas; têm efeitos previsíveis sobre a cognição e vínculo.
A análise crítica de Finkel e colegas (PSPI) é útil por ser equilibrada: as plataformas aumentam o acesso, mas também podem incentivar a comoditização – quando começamos a tratar pessoas como se fossem um produto numa prateleira, algo comparável, substituível, “escolhível”, com base em características de rápida perceção, em vez de alguém com uma história, complexidade e um processo de vínculo que precisa de tempo —, comparação e menor compromisso, dependendo de como são usadas e desenhadas. 

No entanto, há muita coisa que ainda só podemos medir qualitativamente através da nossa experiência – ainda é algo difícil de medir porque os dados detalhados das plataformas não são públicos. Portanto, “está mais difícil” não é uma frase com uma única métrica. É um mosaico: mudanças nas rotinas, na economia, na vida social, nas expectativas, no género e no design do dating (ou estrutura dos encontros).

Apps: quando a facilidade de conhecer colide com a dificuldade em escolher

As aplicações resolveram um problema antigo com uma solução ótima: como conheço alguém fora do meu círculo?
Mas criaram um problema novo: como é que eu paro de procurar e começo a construir?

Há três mecanismos psicológicos comuns:

1. O cérebro entra em “modo catálogo”
Num catálogo, as pessoas tornam-se comparáveis. E, quando tudo é comparável, tudo é substituível.
Isto não significa que sejamos “frios”. Significa que o ambiente nos treina mais para avaliar do que para encontrar.

A investigação aponta precisamente para esse risco: navegar e comparar muitos perfis pode levar a uma objetificação da pessoa e reduzir a disposição para compromisso. 

2. Recompensas pequenas e intermitentes: a “máquina” de manter a esperança
Match. Mensagem. Silêncio. Match. Conversa. “Talvez”.
Isto é emocionalmente exaustivo, porque funciona em reforço intermitente: dá o suficiente para manter a esperança, não o suficiente para consolidar segurança.

E isto liga-se ao que hoje já aparece na literatura como dating app burnout (exaustão emocional, ineficácia, despersonalização da experiência de utilização das apps). 

3. Ghosting e dissolução “sem narrativa”
Quando uma ligação termina sem explicação, não termina apenas a relação, termina também a possibilidade de “fecho” interno. E isso deixa resíduos: ruminação, culpa, hipervigilância no próximo encontro.

Diferenças de experiência entre géneros: ruído vs invisibilidade

Aqui, os dados ajudam-nos a sair de uma guerra de narrativas comum entre géneros (“para vocês é fácil”; “para vocês é impossível”.)

O Pew Research Center (2023) mostra um padrão consistente:
  • Muitas mulheres reportam sentir-se sobrecarregadas com mensagens e também mais experiências negativas (assédio, conteúdo sexual não solicitado);
  • Muitos homens reportam maior insegurança por falta de mensagens/retorno.

Isto cria uma assimetria que distorce o vínculo logo na origem: para umas, o desafio é filtrar ruído e risco; para os outros, o desafio é lidar com escassez e rejeição. 

Depois, há a consequência subtil: quando o início é vivido como “mercado” (seja por excesso, seja por escassez), a tendência é entrar no encontro com menos ternura e gentileza e mais estratégia, o que raramente ajuda a criar intimidade.

Vida offline: o outro lado do problema (e talvez o mais esquecido)

Mesmo quem não usa apps, descreve, muitas vezes, algo parecido: “Não conheço pessoas novas”.

Aqui entra uma ideia: o romance moderno exige uma coisa estranha, que encontremos o amor “naturalmente”, numa vida que já não cria condições naturais para encontros.

A erosão dos “terceiros lugares”

O sociólogo Ray Oldenburg chamou “third places” aos espaços entre casa e trabalho onde a vida social acontece com leveza: cafés, bibliotecas, associações, clubes, aulas, vizinhança. Hoje, estes locais correm o risco de perder relevância e o amor fica assim dependente de:
  • trabalho (cada vez mais fechado/online), ou
  • apps (cada vez mais cansativas)

A ideia de “terceiro lugar” é um bom mapa para perceber porque é que a vida offline parece mais limitada. 

Tempo: a intimidade precisa de repetição e nós vivemos de exceções

O vínculo não nasce só de química. Nasce de repetição com segurança suficiente para relaxar.

Mas a vida dos 25 aos 45 anos (carreira, instabilidade, múltiplos trabalhos, deslocações, burnout) cria uma cultura de “janela”: “Tenho terça à noite, mas não sei como vou estar.”

E isto liga-se a algo maior: quando a vida fica demasiado cheia, o dating transforma-se numa tarefa… E a tarefa mata o desejo.

Habitação e transições adiadas – o “elefante na sala”

Há dados europeus a mostrar mudanças estruturais: aumento de agregados unipessoais na União Europeia e evidência de que a crise da habitação está a atrasar transições para autonomia e formação de casa (incluindo jovens adultos empregados a viver com os pais, por país, em 2022). 

Isto não explica tudo, mas muda o terreno: viver em suspensão entre casa dos pais, partilhas de casa e rendas incomportáveis, altera a sensação de privacidade, a energia, o projeto de vida e até a forma como alguém se apresenta no dating (“não sei bem o que posso oferecer”, “não posso prometer muito”). 

O pano de fundo emocional: mais solidão, menos comunidade

A solidão não é só “não ter ninguém”. É sentir que não se tem com quem partilhar além de uma história, uma vida, nas suas variadas versões. 
O Joint Research Centre da Comissão Europeia criou o primeiro inquérito a nível da UE sobre solidão (2022) e apresenta estimativas de prevalência e padrões sociodemográficos. 

Quando este pano de fundo está presente, é fácil que o dating se torne um movimento pendular:
  • procurar parceiro(a) para aliviar a solidão
  • cansar-se e retirar-se da relação para não se sofrer
  • voltar a procurar alguém porque a solidão volta

E o que podemos fazer perante este cenário? Ideias práticas que aumentam probabilidade de vínculo (sem moralismos e fórmulas mágicas)

1. Trocar “maximizar escolha” por “maximizar condições”
Uma pergunta simples antes de abrir a app:
Estou a procurar um encontro ou “anestesia”?
Se a resposta for “anestesia”, a experiência tenderá a deixar-te pior (porque nunca chega!).

2. Definir um ritual de utilização da app (porque o infinito cansa)
  • 2-3 períodos de tempo por semana (por exemplo, 20–30 min)
  • sem swiping na cama (associa a ansiedade ao descanso)
  • pausa de 1-2 semanas quando surgir saturação (isto é higiene, não desistência)

A literatura sobre fadiga/burnout ajuda a legitimar este cuidado como algo comum, não como fraqueza.
 
3. Menos conversas, mais encontros (com critérios de segurança)
Para reduzir o “purgatório de mensagens”:
  • Algumas mensagens para testar interesses/valores básicos;
  • Proposta de encontro breve para café;
  • Se não há follow-up consistente, não alongar.

Isto combate o efeito de reforço intermitente e a fantasia do “quase”.

4. Um protocolo “anti-catálogo”: três perguntas que humanizam
Em vez do tentador “O que fazes?” – que, claro, faz parte – tentar também outras abordagens, como por exemplo:
  • “O que te tem dado energia ultimamente?”
  • “O que aprendeste sobre ti numa relação anterior?”
  • “O que é um bom domingo para ti?”

Parece um passo pequeno, mas faz com que a pessoa passe de produto a história.

5. Recriar vida offline com intenção (o antídoto dos terceiros lugares)
Se não existem encontros espontâneos, cria-se probabilidade:
  • Uma atividade semanal repetida (aulas, clube, voluntariado, grupo de corrida, coro, dança);
  • Um espaço social fixo (o teu café/biblioteca/mercado, sempre à mesma hora);
  • Uma prática mensal de “amigos trazem amigos” (pequenos jantares, não eventos gigantescos).

Portanto, é  a ideia de Oldenburg aplicada ao amor: construir um ecossistema, não depender de mil matches. 

6. Clarificar “estou disponível para quê?”
Muita dor nasce de expectativas desencontradas.Um gesto adulto (e profundamente sedutor) é dizer cedo:
  • “Procuro uma relação”
  • “Procuro conhecer sem pressa”
  • “Não estou disponível para compromisso agora”

Menos ambiguidade não mata o romance; mata o desperdício de energia e tempo.

Uma conclusão…

Talvez o problema dos millennials não seja “não saber amar”. Talvez seja tentar amar num mundo que:
  • facilita o acesso
  • dificulta a presença
  • treina a comparação
  • e enfraquece os lugares onde a vida se cruza

Felizmente, ainda assim, o vínculo continua vivo. Há esperança! Talvez precisemos de ser um pouco mais criativos e corajosos… O que pode significar deixar de tratar o amor como encontro raro e começar a tratá-lo como uma condição cultivada. 

Juntos pela saúde mental de todos nós,
Dr.ª Ana Fidalgo

Referências 
- Degen, J. L. (2025). Coping with mobile-online-dating fatigue… Current Psychology (Springer). 
- Eurofound. (2024). Young people aged 25–34 in employment and living in the parental home by EU Member State, 2022 (%) (data catalogue). 
- Eurofound. (2025). Foundational challenges: The housing struggles of Europe’s youth. 
- European Commission, Joint Research Centre (JRC). (2022). EU Loneliness Survey (página do projeto). 
- European Commission, Joint Research Centre (JRC). (2022). Loneliness prevalence in the EU (EU-LS 2022). 
- Eurostat. (2024). Household composition statistics (Statistics Explained). 
- Finkel, E. J., Eastwick, P. W., Karney, B. R., Reis, H. T., & Sprecher, S. (2012). Online Dating: A Critical Analysis From the Perspective of Psychological Science. Psychological Science in the Public Interest, 13(1), 3–66. 
- INE (Portugal). (2025). Indicador 0001348 – Idade média ao primeiro casamento (Portugal). 
- LeFebvre, L. E. (2019). Ghosting in Emerging Adults’ Romantic Relationships: The Digital Dissolution Disappearance Strategy. Journal of Social and Personal Relationships. 
- Oldenburg, R. (1989/2023). The Great Good Place (conceito de “third place”). 
- Pew Research Center. (2023). The experiences of U.S. online daters. 
- Pew Research Center. (2023). Key findings about online dating in the U.S. 
- Pronk, T. M., & Denissen, J. J. A. (2020). A Rejection Mind-Set: Choice Overload in Online Dating. Social Psychological and Personality Science. 
- Rosenfeld, M. J., Thomas, R. J., & Hausen, S. (2019). Disintermediating your friends: How online dating in the United States displaces other ways of meeting. PNAS, 116(36), 17753–17758. 
Sharabi, L. L. (2024). Susceptibility to dating app burnout over time. New Media & Society. 

Comments are closed.
    Imagem

    Categorias

    Tudo
    Aconteceu
    Ajudar
    Arte
    Auto Ajuda
    Cidadania
    COVID 19
    Crianças
    Cuidadores
    Datas Festivas
    Dinamizadores Locais
    Doença Mental
    Estigma
    Família
    Figuras Publicas
    Homens
    Idosos
    Iniciativas
    Internacional
    Jovens
    Kit
    Língua Gestual Portuguesa
    ManifestaMente
    Mulheres
    Parentalidade
    Portugal
    Prevenir
    Recursos
    Relações
    Suicidio
    Testemunhos
    Trabalho

    Histórico

    Março 2026
    Fevereiro 2026
    Dezembro 2025
    Novembro 2025
    Outubro 2025
    Junho 2025
    Abril 2025
    Março 2025
    Fevereiro 2025
    Janeiro 2025
    Dezembro 2024
    Novembro 2024
    Outubro 2024
    Setembro 2024
    Agosto 2024
    Julho 2024
    Junho 2024
    Maio 2024
    Abril 2024
    Março 2024
    Fevereiro 2024
    Janeiro 2024
    Dezembro 2023
    Novembro 2023
    Outubro 2023
    Setembro 2023
    Agosto 2023
    Julho 2023
    Junho 2023
    Maio 2023
    Abril 2023
    Março 2023
    Fevereiro 2023
    Janeiro 2023
    Dezembro 2022
    Novembro 2022
    Outubro 2022
    Setembro 2022
    Agosto 2022
    Julho 2022
    Junho 2022
    Maio 2022
    Abril 2022
    Março 2022
    Fevereiro 2022
    Janeiro 2022
    Dezembro 2021
    Novembro 2021
    Outubro 2021
    Setembro 2021
    Agosto 2021
    Julho 2021
    Junho 2021
    Maio 2021
    Abril 2021
    Março 2021
    Fevereiro 2021
    Janeiro 2021
    Dezembro 2020
    Novembro 2020
    Outubro 2020
    Setembro 2020
    Agosto 2020
    Julho 2020
    Junho 2020
    Maio 2020
    Abril 2020
    Março 2020
    Fevereiro 2020
    Janeiro 2020
    Dezembro 2019
    Novembro 2019
    Outubro 2019
    Setembro 2019
    Julho 2019
    Junho 2019
    Maio 2019
    Abril 2019
    Março 2019
    Fevereiro 2019
    Janeiro 2019
    Dezembro 2018
    Novembro 2018

    Feed RSS

    Termos e Condições:
    1. Gerais
    2.Termos de utilização do site, página do Facebook e eventos do ManifestaMente
    3. Política de Privacidade
    4. Política de Cookies

Powered by Create your own unique website with customizable templates.
  • Quem somos
    • ManifestaMente
    • Manifesto pela Saúde Mental
    • Valores
    • equipa
    • Apoios e Parcerias
    • Media
    • Congressos e outros
  • O que fazemos
    • Kit Básico de Saúde Mental
    • Programa de Capacitação de Dinamizadores Locais
    • Kit Jovens
    • Kit Crianças
    • De pequenino a torcer pela saúde mental
    • Cantar pela Saúde Mental
    • Podcast Manifesta-Te
  • Como Ajudar
    • a ManifestaMente
      • Asssociar-me
    • no meu dia-a-dia
    • uma pessoa próxima
  • Preciso de Ajuda
  • Testemunhos
  • Blog
  • Contactos
    • jornalistas
    • Subscrever Newsletter
  • zona do utilizador