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Pensei durante algum tempo que isto fosse apenas uma impressão clínica, uma espécie de eco seletivo do consultório e da minha comunidade. No entanto, ao investigar um pouco mais, percebi que a verdade é que o contexto relacional mudou globalmente, e há evidência científica e dados sociais que ajudam a colocar uma lupa nesta sensação.
Como acredito que o amor é o motor da vida e a gravidade invisível que mantém o mundo no lugar, recuso-me a “baixar os braços” perante este cenário – e, para construir esperança , acredito que é necessário primeiro assumirmos a realidade: as probabilidades e os custos psicológicos mudaram. O que antes era sobretudo um encontro mediado por contexto (amigos, trabalho, bairro, comunidade) passou, para muita gente, a ser um encontro mediado por sistema: plataformas, perfis, métricas, comparações, microdecisões rápidas. E isto mexe com o vínculo que (não) se cria, de forma muito subtil. Durante uma formação com a minha supervisora, onde o tema era, precisamente, a vinculação, navegámos numa conversa sobre este aspeto da modernidade: o dating contemporâneo tende a aumentar a exposição e a reduzir a continuidade. Mais contactos possíveis, menos tecido social a segurar a história. O que a ciência (já) consegue dizer e o que ainda não consegue Há três peças bastante robustas: A. Conhecer online tornou-se uma via dominante (em vários cenários), e isso desloca “terceiros”, que antes davam contexto e confiança. O trabalho de Rosenfeld e colegas mostra como o “online meeting” ganhou centralidade e como o encontro mediado por amigos/família perde peso, alterando a forma como a confiança se constrói (menos reputação, menos contexto partilhado, menos rede comum). B. “Muita escolha” pode levar a maior rejeição e menos investimento. Um estudo sobre “choice overload” (sobrecarga de escolha) e “rejection mindset” (mentalidade de rejeição) sugere que o acesso contínuo a muitos potenciais parceiros pode levar ao desenvolvimento de uma postura mais pessimista ou rejeitadora, o que afeta a disposição para investir. C. As apps não são “boas” ou “más” por si mesmas; têm efeitos previsíveis sobre a cognição e vínculo. A análise crítica de Finkel e colegas (PSPI) é útil por ser equilibrada: as plataformas aumentam o acesso, mas também podem incentivar a comoditização – quando começamos a tratar pessoas como se fossem um produto numa prateleira, algo comparável, substituível, “escolhível”, com base em características de rápida perceção, em vez de alguém com uma história, complexidade e um processo de vínculo que precisa de tempo —, comparação e menor compromisso, dependendo de como são usadas e desenhadas. No entanto, há muita coisa que ainda só podemos medir qualitativamente através da nossa experiência – ainda é algo difícil de medir porque os dados detalhados das plataformas não são públicos. Portanto, “está mais difícil” não é uma frase com uma única métrica. É um mosaico: mudanças nas rotinas, na economia, na vida social, nas expectativas, no género e no design do dating (ou estrutura dos encontros). Apps: quando a facilidade de conhecer colide com a dificuldade em escolher As aplicações resolveram um problema antigo com uma solução ótima: como conheço alguém fora do meu círculo? Mas criaram um problema novo: como é que eu paro de procurar e começo a construir? Há três mecanismos psicológicos comuns: 1. O cérebro entra em “modo catálogo” Num catálogo, as pessoas tornam-se comparáveis. E, quando tudo é comparável, tudo é substituível. Isto não significa que sejamos “frios”. Significa que o ambiente nos treina mais para avaliar do que para encontrar. A investigação aponta precisamente para esse risco: navegar e comparar muitos perfis pode levar a uma objetificação da pessoa e reduzir a disposição para compromisso. 2. Recompensas pequenas e intermitentes: a “máquina” de manter a esperança Match. Mensagem. Silêncio. Match. Conversa. “Talvez”. Isto é emocionalmente exaustivo, porque funciona em reforço intermitente: dá o suficiente para manter a esperança, não o suficiente para consolidar segurança. E isto liga-se ao que hoje já aparece na literatura como dating app burnout (exaustão emocional, ineficácia, despersonalização da experiência de utilização das apps). 3. Ghosting e dissolução “sem narrativa” Quando uma ligação termina sem explicação, não termina apenas a relação, termina também a possibilidade de “fecho” interno. E isso deixa resíduos: ruminação, culpa, hipervigilância no próximo encontro. Diferenças de experiência entre géneros: ruído vs invisibilidade Aqui, os dados ajudam-nos a sair de uma guerra de narrativas comum entre géneros (“para vocês é fácil”; “para vocês é impossível”.) O Pew Research Center (2023) mostra um padrão consistente:
Isto cria uma assimetria que distorce o vínculo logo na origem: para umas, o desafio é filtrar ruído e risco; para os outros, o desafio é lidar com escassez e rejeição. Depois, há a consequência subtil: quando o início é vivido como “mercado” (seja por excesso, seja por escassez), a tendência é entrar no encontro com menos ternura e gentileza e mais estratégia, o que raramente ajuda a criar intimidade. Vida offline: o outro lado do problema (e talvez o mais esquecido) Mesmo quem não usa apps, descreve, muitas vezes, algo parecido: “Não conheço pessoas novas”. Aqui entra uma ideia: o romance moderno exige uma coisa estranha, que encontremos o amor “naturalmente”, numa vida que já não cria condições naturais para encontros. A erosão dos “terceiros lugares” O sociólogo Ray Oldenburg chamou “third places” aos espaços entre casa e trabalho onde a vida social acontece com leveza: cafés, bibliotecas, associações, clubes, aulas, vizinhança. Hoje, estes locais correm o risco de perder relevância e o amor fica assim dependente de:
A ideia de “terceiro lugar” é um bom mapa para perceber porque é que a vida offline parece mais limitada. Tempo: a intimidade precisa de repetição e nós vivemos de exceções O vínculo não nasce só de química. Nasce de repetição com segurança suficiente para relaxar. Mas a vida dos 25 aos 45 anos (carreira, instabilidade, múltiplos trabalhos, deslocações, burnout) cria uma cultura de “janela”: “Tenho terça à noite, mas não sei como vou estar.” E isto liga-se a algo maior: quando a vida fica demasiado cheia, o dating transforma-se numa tarefa… E a tarefa mata o desejo. Habitação e transições adiadas – o “elefante na sala” Há dados europeus a mostrar mudanças estruturais: aumento de agregados unipessoais na União Europeia e evidência de que a crise da habitação está a atrasar transições para autonomia e formação de casa (incluindo jovens adultos empregados a viver com os pais, por país, em 2022). Isto não explica tudo, mas muda o terreno: viver em suspensão entre casa dos pais, partilhas de casa e rendas incomportáveis, altera a sensação de privacidade, a energia, o projeto de vida e até a forma como alguém se apresenta no dating (“não sei bem o que posso oferecer”, “não posso prometer muito”). O pano de fundo emocional: mais solidão, menos comunidade A solidão não é só “não ter ninguém”. É sentir que não se tem com quem partilhar além de uma história, uma vida, nas suas variadas versões. O Joint Research Centre da Comissão Europeia criou o primeiro inquérito a nível da UE sobre solidão (2022) e apresenta estimativas de prevalência e padrões sociodemográficos. Quando este pano de fundo está presente, é fácil que o dating se torne um movimento pendular:
E o que podemos fazer perante este cenário? Ideias práticas que aumentam probabilidade de vínculo (sem moralismos e fórmulas mágicas) 1. Trocar “maximizar escolha” por “maximizar condições” Uma pergunta simples antes de abrir a app: Estou a procurar um encontro ou “anestesia”? Se a resposta for “anestesia”, a experiência tenderá a deixar-te pior (porque nunca chega!). 2. Definir um ritual de utilização da app (porque o infinito cansa)
A literatura sobre fadiga/burnout ajuda a legitimar este cuidado como algo comum, não como fraqueza. 3. Menos conversas, mais encontros (com critérios de segurança) Para reduzir o “purgatório de mensagens”:
Isto combate o efeito de reforço intermitente e a fantasia do “quase”. 4. Um protocolo “anti-catálogo”: três perguntas que humanizam Em vez do tentador “O que fazes?” – que, claro, faz parte – tentar também outras abordagens, como por exemplo:
Parece um passo pequeno, mas faz com que a pessoa passe de produto a história. 5. Recriar vida offline com intenção (o antídoto dos terceiros lugares) Se não existem encontros espontâneos, cria-se probabilidade:
Portanto, é a ideia de Oldenburg aplicada ao amor: construir um ecossistema, não depender de mil matches. 6. Clarificar “estou disponível para quê?” Muita dor nasce de expectativas desencontradas.Um gesto adulto (e profundamente sedutor) é dizer cedo:
Menos ambiguidade não mata o romance; mata o desperdício de energia e tempo. Uma conclusão… Talvez o problema dos millennials não seja “não saber amar”. Talvez seja tentar amar num mundo que:
Felizmente, ainda assim, o vínculo continua vivo. Há esperança! Talvez precisemos de ser um pouco mais criativos e corajosos… O que pode significar deixar de tratar o amor como encontro raro e começar a tratá-lo como uma condição cultivada. Juntos pela saúde mental de todos nós, Dr.ª Ana Fidalgo Referências - Degen, J. L. (2025). Coping with mobile-online-dating fatigue… Current Psychology (Springer). - Eurofound. (2024). Young people aged 25–34 in employment and living in the parental home by EU Member State, 2022 (%) (data catalogue). - Eurofound. (2025). Foundational challenges: The housing struggles of Europe’s youth. - European Commission, Joint Research Centre (JRC). (2022). EU Loneliness Survey (página do projeto). - European Commission, Joint Research Centre (JRC). (2022). Loneliness prevalence in the EU (EU-LS 2022). - Eurostat. (2024). Household composition statistics (Statistics Explained). - Finkel, E. J., Eastwick, P. W., Karney, B. R., Reis, H. T., & Sprecher, S. (2012). Online Dating: A Critical Analysis From the Perspective of Psychological Science. Psychological Science in the Public Interest, 13(1), 3–66. - INE (Portugal). (2025). Indicador 0001348 – Idade média ao primeiro casamento (Portugal). - LeFebvre, L. E. (2019). Ghosting in Emerging Adults’ Romantic Relationships: The Digital Dissolution Disappearance Strategy. Journal of Social and Personal Relationships. - Oldenburg, R. (1989/2023). The Great Good Place (conceito de “third place”). - Pew Research Center. (2023). The experiences of U.S. online daters. - Pew Research Center. (2023). Key findings about online dating in the U.S. - Pronk, T. M., & Denissen, J. J. A. (2020). A Rejection Mind-Set: Choice Overload in Online Dating. Social Psychological and Personality Science. - Rosenfeld, M. J., Thomas, R. J., & Hausen, S. (2019). Disintermediating your friends: How online dating in the United States displaces other ways of meeting. PNAS, 116(36), 17753–17758. Sharabi, L. L. (2024). Susceptibility to dating app burnout over time. New Media & Society. Comments are closed.
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