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Trata-se de um estado de bem-estar que permite à pessoa lidar com os desafios do quotidiano, reconhecer as suas capacidades, trabalhar, aprender e participar na comunidade (WHO, s.d.; WHO, 2025). Ao longo da vida, a saúde mental é influenciada por fatores muito diversos, desde as características individuais às condições familiares, sociais e económicas. Contextos de adversidade, como pobreza, violência, desigualdade ou exclusão, aumentam a vulnerabilidade ao sofrimento psíquico (WHO, s.d.). Ainda assim, apesar da existência de intervenções eficazes, muitas pessoas continuam sem acesso a cuidados adequados e enfrentam, além do sofrimento, o peso do estigma e da discriminação (WHO, 2025).
Importa também distinguir sofrimento humano expectável de perturbação mental. Nem toda a dor emocional é sinal de doença. Ao longo do ciclo de vida, existem reações de ajustamento que são normais e compreensíveis, face a acontecimentos significativos, como uma perda, uma separação, a adolescência, a parentalidade ou a reforma (Ordem dos Enfermeiros, 2023). Essas respostas podem envolver tristeza, ansiedade, irritabilidade ou maior fragilidade emocional, sem que isso signifique, por si só, a presença de doença mental. A diferença está na intensidade, duração, contexto e impacto funcional. Quando a resposta se torna persistente e desproporcional e compromete de forma marcada o funcionamento pessoal, social ou profissional, pode estar em causa uma perturbação mental que exige avaliação clínica adequada (Townsend & Morgan, 2021; WHO, 2025). É precisamente neste ponto que o estigma se torna particularmente prejudicial. O estigma em saúde mental corresponde ao conjunto de crenças, atitudes e estereótipos negativos socialmente atribuídos às pessoas com doença mental, afetando a sua imagem social, as relações interpessoais, as oportunidades de vida e a forma como se veem a si próprias (Shalaby et al., 2025). Muitas vezes, traduz-se na ideia de que quem sofre psicologicamente é fraco, perigoso, incapaz ou responsável pelo que lhe acontece. Estas leituras simplificadoras ignoram a complexidade da experiência humana e podem favorecer interpretações moralizantes ou patologizantes do sofrimento (Krugers & Joëls, 2025). A evidência mostra que o estigma tem consequências concretas. Não se limita ao plano simbólico: interfere com a qualidade de vida, o acesso aos cuidados, a adesão ao tratamento, a inclusão social e a autoestima (Kågström et al., 2025; Omondi, 2024). Quando as representações negativas são repetidamente experienciadas, podem ser interiorizadas pela própria pessoa, dando origem ao chamado autoestigma. Nessa situação, o problema deixa de ser apenas o olhar dos outros e passa a afetar o modo como a pessoa se percebe: sente vergonha, perde confiança, duvida do seu valor e pode começar a acreditar que não merece ajuda ou que procurar apoio é sinal de fracasso (Adade et al., 2025; Omondi, 2024). Este processo ajuda a compreender porque tantas pessoas demoram a pedir ajuda. O atraso nem sempre resulta de desinteresse ou negação; muitas vezes nasce do medo de ser julgado, incompreendido ou rejeitado. Estudos com adolescentes mostram que mesmo níveis moderados de estigma podem reduzir significativamente a procura de ajuda psicológica, sobretudo numa fase da vida em que a pertença ao grupo e a opinião dos outros têm um peso particular (Indari et al., 2025). Também em adultos jovens, a desvalorização do sofrimento por parte da família ou dos amigos, os conselhos moralizantes ou a ideia de que a depressão é “fraqueza” podem favorecer o silêncio e adiar o contacto com os serviços de saúde mental (Samari et al., 2022). O estigma não afeta apenas a pessoa doente. Pode igualmente atingir a família, que passa a viver vergonha, isolamento, culpa e sofrimento por associação (Shalaby et al., 2025). Nalguns casos, os familiares internalizam também essas crenças negativas, fenómeno designado por estigma afiliado, com impacto no seu bem-estar e na própria qualidade do cuidado prestado (Bahrami & Khalifi, 2022). Por isso, combater o estigma exige mais do que campanhas pontuais: requer informação rigorosa, linguagem cuidadosa, maior literacia em saúde mental e uma cultura de cuidado mais humana e inclusiva (Awan et al., 2025). Sensibilizar para o impacto do estigma é, no fundo, reconhecer que a doença mental não retira dignidade, valor ou humanidade a ninguém. Quanto mais cedo distinguirmos sofrimento humano de preconceito, e cuidado de julgamento, mais perto estaremos de uma sociedade capaz de acolher, compreender e apoiar quem precisa. Juntos pela saúde mental de todos nós, Liliana Camarate Referências: - Adade, A. E., Agyei, D. N., Nyarko, E. K., Anum, A., Yamson, R., & Dzokoto, V. A. (2025). Does stigma influence intentions to seek mental health care? A study among adults attending University in Ghana. PLOS Mental Health, 2(8), e0000378. - Bahrami, R., & Khalifi, T. (2022). The effect of psycho-education on the affiliate stigma in family caregivers of people with bipolar disorder. SAGE open nursing, 8, 23779608221132166. - World Health Organization. (n.d.). Mental health. Consultado em abril de 2026, em https://www.who.int/health-topics/mental-health#tab=tab_1 - World Health Organization. (2025, 30 de setembro). Mental disorders. Consultado em 30 de abril de 2026, em https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/mental-disorders - Indari, Titi Sri Suyanti, Rahmi Sari Kasoema, & Amrina Rasyada. (2025). The Stigma Associated With Mental Illness and How it Affects Adolescents’ Desire for Assistance. Sustainable Applied Modification Evidence Community, 2(2), 81–89. - Kågström, A., Guerrero, Z., Aliev, A. A., Tomášková, H., Rüsch, N., Ouali, U., ... & Winkler, P. (2025). Mental health stigma and its consequences: a systematic scoping review of pathways to discrimination and adverse outcomes. EClinicalMedicine, 89.21-8/fulltext - Krugers, H. J., & Joëls, M. (2025). The Stress Response Is Adaptive in a Context- and State-Dependent Manner. Cells, 14(24), 1957. - Omondi, K. (2024). Mental health stigma and its impact on help-seeking behavior. International Journal of Humanity and Social Sciences, 3(3), 15-29. - Ordem dos Enfermeiros (2023). Guia Orientador de Boas Práticas de Promoção da Literacia em Saúde Mental. (1a ed.). - Samari, E., Teh, W. L., Roystonn, K., Devi, F., Cetty, L., Shahwan, S., & Subramaniam, M. (2022). Perceived mental illness stigma among family and friends of young people with depression and its role in help-seeking: a qualitative inquiry. BMC psychiatry, 22(1), 107. - Shalaby, A. S., Ibrahem, R. A. L., Seleem, M. A., Sharfeldin, A. Y., ElWasify, M., Abdel-Raouf, S. Y., ... & Hasan, H. (2025). Perceived stigma toward individuals with mental illness and their families: perspectives of patients’ relatives in a multicentric Egyptian study. Middle East Current Psychiatry, 32(1), 83. - Towsend, M. C., & Morgan, K. I. (2021). Enfermagem psiquiátrica, conceitos de cuidados na prática baseada em evidências. Editora Guanabara Koogan LTDA. Os comentários estão fechados.
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